26 de jan de 2019

A carta diz ainda...

 ...Escrevo-vos da cidade do Tempo interrompido. A lenta catástrofe não acaba. A nossa vida escorre, a nossa vida esboroa-se e ainda esperamos “o momento que repasse o muro”. 
A velha disputa une o irmão ao irmão. Estamos todos encurralados pela cerca do frio. Os que possuíam possuem sem possuir. Cada um é pobre em si mesmo, não ocupando sequer a sua cama, é a aflição que a ocupa. 
A desordem está em todo o lado. As orelhas servem a unidade do Universo, mas os braços são para se despenharem sobre ele e a letargia para manter o andamento. 
O ferro deixou de ter peso. Redescobre-se na alta atmosfera, sólido, rápido, dedicado ao mal. O pensamento por outro lado nunca foi tão pesado. Pesa desmesuradamente. 
Falou falsamente o provérbio “ninguém se fere duas vezes na mesma flecha”. Como? Não fere duas vezes. Duas mil vezes duas vezes e ela ainda fere, afiada como nunca. Sob o pensamento inextinguível, arde a fronte. O bálsamo do esquecimento não pode ser cozinhado... 
Os que falam empolam a voz, mas também incham a verdade. A matilha corre numa extensa região. Uma matilha não pede senão para correr, mas quem pede para ser perseguido? A matilha de forte ladrar espalhou-se... 
….................................................................................................... 
Escrevo-vos do país das atrocidades, escrevo-vos da Capital da multidão adormecida. É a indiferença que reina no meio do horror. Imploramos pelo fim e o fim que vem é o do nivelamento... as formas nobres já não aparecem. Vemos os pescoços esticados para serem mais baixos. A paz envergonha-se... 
Sabei também: as nossas palavras abandonaram-nos. Recuaram sobre nós mesmos. Na realidade, ela vive, erra no meio de nós A FACE QUE PERDEU A BOCA. 
…................................................................................................ 
Por vezes, num barulho ensurdecedor, as nossas casas feitas de pó vertem-se sobre a rua. Os funcionários da corrida para a morte permanecem inumeráveis.  
….................................................................................................. 
Vou parar de vos escrever. Não, não envieis o chefe de cerimónias. Ainda não é tempo de festa. 
…................................................................................................... 
Permanecemos sentados na boca do poço abandonado. Estava tudo tingido de ferrugem, da cor de vigas enegrecidas, de profundo cansaço. 
Triângulos rígidos de pássaros atravessavam o céu com estardalhaço. 
O desespero como a chuva, para quando o fim da precipitação? 
Tacanho velho vaidoso, querendo reinar, deixando matar, alegremente pisado, agarrava uma boneca. 
O tempo escoava, resposta evasiva, os anos numa correia, entre os dedos dos traidores. 
Nós olhámo-nos em silêncio. 
Nós olhámo-nos com a seriedade precoce dos filhos de um cego. 
  



Michaux - "travessias, exorcismos" (1940-1944)

A carta

     
Escrevo-vos de um país outrora claro. Escrevo-vos do país da sombra e do edredom. Há bastante tempo que vivemos na Torre da bandeira submissa. Oh! Verão! Verão envenenado! E desde então repete-se o mesmo dia, o dia da memória embutida... 
 O peixe pescado ainda pensa na água enquanto pode. Tanto que possa, não é natural? No topo da escarpa de uma montanha recebemos uma estocada de bandarilha. De seguida é a vida toda que muda. Um instante arromba a porta do Templo. 
Pedimos conselhos uns aos outros. Deixamos de saber. Nenhum sabe mais do que outro. Este enlouqueceu. Aquele está baralhado. Todos estão desamparados. O desassossego instalou-se. A sabedoria não permanece sequer o tempo de uma inspiração. Dizei-me. Quem ao ser trespassado por três flechas na cara se mostrará com um ar indiferente? 
A morte tragou alguns. A prisão, o exílio, a fome, a miséria, devoraram os outros. Os imensos sabres do estremecimento atravessaram-nos, seguidos pelo abjecto e a dissimulação. 
Quem sobre este chão é ainda coberto de beijos pela alegria, beijos que se afundam até ao transformado coração?  
A união do eu e do vinho é um poema. A união do eu e da mulher é um poema. A união do céu e da terra é um poema. Mas o poema que nos cantaram paralisou-nos a compreensão.  
O nosso canto não pode nascer no sofrimento agudo. A arte com vestígios de Jade estagnou. As nuvens passam, as nuvens com recortes de pedras, com contornos de pêssegos, e nós, de modo similar passamos, atulhados com as potências infecundas da dor.  
O dia tornou-se odioso. Ele grita. Já não amamos a noite assombrada de cuidados. Milhares de vozes para nos subterrar. Nenhuma voz que nos sustenha. A nossa pele está farta do nosso rosto lívido.  
O acontecimento é grande. Também a noite é grande, mas que poderes é que ela tem? Os mil astros que a perfuram não desobscurecem uma única cama. Os que sabiam já não sabem. Entram nos carris, rodam com a roda.  
“Ser-se inteiro no que é seu?” Nem pensem nisso! Não há casa solitária na ilha dos macaquinhos. Na queda floresceu a perfídia. O puro não é puro. Aparece obstinado e rancoroso. Alguns expressam-se com guinchos. Outros através da fuga. Mas a grandeza não aparece.  
O ardor em segredo, a despedida da verdade, o silêncio da pedra tumular, o grito do esfaqueado, a reunião do repouso gelado e dos sentimentos ardentes foi a nossa reunião e a estrada do cão boquiaberto a nossa estrada. 
Não nos reconhecemos no silêncio, nem nos reconhecemos nos urros, nem nas nossas grutas, nem nos gestos dos estrangeiros. À nossa volta o campo encharcou-se de indiferença e o céu lavou-se de intenções. 
Olhámo-nos no espelho da morte. Olhámo-nos no reflexo da chancela violada, no sangue que corre, na pulsão decapitada, no espelho de cinzas da humilhação. 
Regressámos às fontes glaucas. 



Michaux - "travessias, exorcismos" (1940-1944)

 

14 de jan de 2019

A torto e a direito - Michaux

       Frequentemente dizemos uma grande palavra, para impedir uma pequena de aparecer. Essa grande de qualquer modo nunca vem só. Como ela não serve para nada, sem se aquecer na pressão que a rodeia, precisa de milhares, de milhares para erguer uma superfície e obscurecer a pessoa atrás desse plano.
      À sombra de muros de papel, os tristes desfilam.
      Mas aparecem sempre novas camadas para apoiar a barragem estabelecida, que precisa que a apoiem.
      Todos os dias de manhã (e também à noite),  o instrumento de massas vem fazer a sua obturação. Toda a gente, de moeda na mão, se atira, ávidos de agarrar finalmente a madeira sólida da verdadeira realidade. Mas não encontram senão papel para a barragem, para a barragem cada vez mais espessa, cada vez mais reforçada para que não passe nenhuma pequena palavra entre os muros das grandes. Aparecem equipas novas no meio da agitação, a algazarra não desaparece nunca e a vida escorre entre os anos de tambor.

Nota sobre as maldições - Michaux

   "Não sei o que farei, diz o rei Lear, mas será o assombro da terra."
    Imensidade do arrebatamento sem proporção com o acontecimento de empurra-botão. Essa força demasiado vasta e insuportável, que, não tendo glândula, também não tem extracção possível, condenada a ser platónica (mas deixar-vos-á loucos, se não fizerdes nada), é preciso indicá-la.
      O enorme lago tumultuoso, então, que parecia ter de transbordar todo o conteúdo, é suficiente para o lançar do torpedo. Não é exagerado. E vós bem relaxado (tenso agora apenas num ponto). É como se tivesse sido puncionado, não é bem isso, ainda menos anulado, inteiramente atrás da operação de lançamento, inteiramente  e constantemente na continuação do impulso-projecção. 
     Já não sofremos. Saídos da paixão, estamos na acção. Quem acusar? O odioso indivíduo que se atravessou no vosso caminho. É preciso "apostar" em alguém real, contra o qual nos possamos "sentir". Sem objectivo, não temos alvo para olhar. Sem mira, não temos desejo suficiente para o caminho. Mas não fiquemos apenas no objectivo. Qualquer coisa nos adverte, talvez erradamente (acreditamos de boa vontade sermos mais fortes do que somos), ao localizar a vossa tensão extrema, esse desprender-se da força infernal que vos aliviou, dá a entender que ela poderá devir esmagadora no seu percurso, perigosa, faz-vos sentir que não devereis continuar a pressão.
     Não somos tão difíceis de convencer como acreditam alguns.
     O indivíduo que ocupava, com negrume, todo o horizonte do vosso irritado ser, tornado pálido e restringido a si mesmo, não está à altura do ódio copioso (modo de vida) onde vos mantendes prazenteiramente. 
     Por outro lado, essa experiência com os alvos mostrar-vos-á rapidamente que não existe alvo perfeito. Ninguém convém, ninguém é idealmente odiável. Falta-lhe sempre muito (o que é surpreendente). Falta-lhe e tem-no em excesso. Ele tem raizes em múltiplas pessoas, tem sangue que não lhe pertence apenas a ele, e tem o sal das circunstâncias. Tem o seu género ligado a uma época, a todo um mundo odiado.
     Vós sois naturalmente impulsionado a modificações de personagem. Torná-lo-eis pior, melhorando-o desse modo para o vosso propósito.
     Sem ter de temer prejuízos, apontais sem rodeios, sobre o ser composto tornado digno de uma ofensiva total. Se a verdadeira magia negra, malevolência que continua a ousar atingir um único ser, real, limitado, graças a retratos precisos ou figurinos, limitando-se, obstinando-se, violentamente, de modo vil e prosaico, pode-se tornar em casos raros mortífera para alguém fragilizado, acusado e amedrontado, as maldições têm raramente o mesmo efeito, tendo um mecanismo completamente diferente.
    As maldições, e especialmente as maldições em cadeia (a sua leitura é quase sempre tónica) tendem a mais do que uma mera destruição, tendem a criar um motor. Não ferir ou suprimir o adversário, mas através da oposição ao adversário, criar em si o Dragão de fogo.
    Graças ao ritmo, o movimento retira o mais grave à matéria, o seu peso, a sua resistência.
    Velocidade, alívio do mal, do baixo, do pesado. Espécie de antimatéria, de ideal ao primeiro grau.
    O efeito sobre si: ficamos limpos, de um modo diverso de uma confissão ou de uma análise de causas psicológicas.  Não esprememos a nossa esponja, nem assistimos ao desfarelar do nosso edifício. fizemos um trabalho. Lutámos uma batalha real, combatividade substituindo todos os sentimentos. 
     Ficamos satisfeitos pelo recobro de forças.
     A ultrapassagem é um facto. A personagem perturbadora, podemos reencontrá-la. Deixou de nos perturbar.
     Todavia, pode haver outros inconvenientes. A oração tem-nos. Toda a concentração de pensamento ou de sentimento, sendo desejo, tem os inconvenientes de todas as sólidas barricadas.
     Mesmo perigosa é a concentração sobre a bondade.
     Vejam as pessoas a sair da Igreja. Depois do primeiro encontro débil sob o pórtico, por mais fixos que estejam no ideal da caridade, estão prontos para o inumano.
     O inconveniente de se ter entregue à contemplação da caridade perfeita: ela não tem aplicação. (os pobres que lhe aparecem nunca estarão suficientemente nus, em falta, idealmente perdidos, para representarem a figura do próximo a socorrer. Em segundo lugar, ela satisfaz-se no vazio).    
     De igual modo saem, sem duvidarem de si, duros como ninguém, duros como pedras, degolados.
     Libertai-vos do mal, sobrar-vos-á o bem.
     Libertai-vos do bem, o que vos sobrará?
     Uma surpresa análoga à concentração. Aquele que, segundo o dito dos cristãos, "tentado pela carne", aceita, ou antes, quer, decide de ver em espírito formar-se o fértil e generoso corpo da mulher que o assombrava (lado passivo) e que agora o cria e o dá a ver (lado activo), logo as formas presentes, a tentação desaparece. A força que serviu para a formação desejada substitui a inquietação.
    Concentração é força e não tem senão os atributos das forças.
    Para a magia de maldição, ela é principalmente,  martelar, martelar, martelar. 


(1950)

12 de jan de 2019

um poema começa lentamente

a rememorar os poderes do amor                                              
           e da poesia, 
a Berkeley que acreditávamos ser                                       
          um pomar da Arcádia —

que possam haver                                            

          potencias no que é comum                                
"esplêndidas manipulações do real"
 

sob duras luzes eléctricas,  
        de filamentos expostos                               
estudávamos e amávamos,                                           
       fundidos no                                                   
ofuscante e seráfico brilho,                                       
      velhas lâmpadas do saber                                           
      velhas lâmpadas do sofrer.
 

mas não é assim que vejo.                                 
       Estrábico,                                                               
o olho esquerdo vê o perto                                             
      como evidente,                                                    
                            o longe                                                        
turva; o direito funde tudo                                   
imediato à vista.

Aí soube primeiramente                                                   

que os companheiros se nomeiam a si mesmos                              
e no tempo de dar nomes                                                     movem                                                                        
para cima           para fora                                                           
formas de desejo e iluminação,

mas intoxicado,                                                     

        apenas pelo desejo                                                        
inclinado para a antecedente companhia                                  
das estrelas nomeadas                                                  
que requerem a atenção para a tensão 
        que se desenha,

​                         compelem                                      

como as letras que soletramos e enfeitiçamos chamam palavras                          
         mágica subtileza;

e procuraram na árvore e no sol, na noite e no mar,              

velhos poderes — Dionísio enfurecido, Apolo arrebatado,              
Orfeu numa canção, e Eros secretamente

para esse Cristo-cruzado numa natureza                                      

que Platão chamou a Primeira Amada

agora vejo                                                         

que todos os que aumentaram                                            
         no meu ser

me deram casa, espectro,                                        

cor e forma, na qual habito                                          
        para além da Arcádia.

Pois doce é também a Morte    copiosa                             

        imitadora do êxtase                                                        
e que aí esteja um Grande Amante,                                 
        Salvator Mundi,                                                       
cujo reino pende sobre mim;

também as lâmpadas penduradas entre                                 

       a sombria folhagem aí estão;                                         
também os anteriores arrebatamentos                               
      e entusiasmos, aconteceram, e tecem melodias                               
que se movem quando as toco; 

tais linhas tristes poderiam ter sido                                             

que agora levaste ao regozijo.

de toda a destemida felicidade                                           

a partir da qual a minha vida alcança eu canto —                           
                        os anos que emitem

             para os assim chamados primeiros dias,                              

             para os assim chamados últimos dias,

fronteiras inadequadas

do coração a que te agarras.







Robert Duncan
the Opening of the Field, 1960

A dança

dos que a dançam circula entre outros 
           dançarinos. Este
ter-sido febril e leve excesso do
           movimento faz
cada homem     tocar o pico    co-
           ordenado.

Amorosamente os seus pés percutem o verde prado.
            Os dançarinos

mimam flores — caules, estames e pétalas
            são as nossas palavras,

as nossas articulações, as nossas
            medidas.


É a alegria que excede o prazer.

​      Passas-te a conta, disse ela
 

ou assim o li nos seus olhos.
O velho Friedl tornou-se tão amável com a idade,

​       Lembro-me apenas da verdade.
       Prometo pelo meu anseio.

​       Conquistas-te o teu desejo, disse ela
       Os números entraram-te nos pés.
 

        roda   roda   roda

       Quando tiveres partido de vez, menino, terno menino...
 

       Para onde fui, Amada?
 

       Para a Waltz, bailarino.

Amorosamente
adoçam o prado as nossas circulações.
Na tumultuosa imagem de Ruben as dançarinas de Maio 
ensinam-nos                  a nossa aprendizagem procura
        o abandono!

Maximus chamou-nos para dançar o Homem.

Nós chamamo-lo a ele para que chame
a estação     para fora da mente fora de
estação!

​                        Amorosamente

nos juntamos para dançar verde para o prado.
 

Whitman estava certo.  Os nossos nomes soltam-se
       como folhas de erva,

prazer e parecença, a verdura humana
dura como erva que sobrevive às estações cruéis.

        Vejo agora uma cintilação.

        Partiram os que dançavam.
        Deitados aos molhos, exaustos.

        mortos de cansaço, dizemos.
        Acordarão pelo meio-dia.

​         Eu voltei cedo
         para o silêncio,
         para o amável tormento que é 

         uma flor,
         de regresso ao lugar da dança silencioso.
 

(Esse era o meu trabalho no verão. Dançava até às três, depois voltava para limpar o Hall até às nove — beatas, garrafas, papéis anotados da noite anterior. Escrevê-lo agora, é o rescaldo, o silêncio, lembro-me, partes da dança, uma articulação do tempo de dançar... como o sono quase morto é um degrau. tenho-o num poema, sobre Friedl, lamentando-se nas profundezas de. Mas esse era outro quarto nesse verão. Parte da minha descrição. O que vejo é um prado...

          desaparecerei antes que acordem...
              

                        ver o orvalho cintilante.









Robert Duncan
the Opening of the Field, 1960


​                    

estruturas da rima II - R. Duncan

Então e a estrutura da rima? Disse eu.

         O mensageiro com a aparência de um Leão rugiu: Porque é que o homem recolhe a sua canção do ar debilitado? Ele trás a sua jovem para a abertura do campo. Teme assim tanto a compulsão da beleza?

Eu com a aparência de um leão rugi grandes vogais e ouvi as suas magnificas articulações.

Um leão sem disfarce disse: O que cantou para encantar os animais tinha a língua falsa. Há uma melodia dentro do seu excesso de discurso que pertence à maior parte dos homens. 

       Então e a estrutura da rima? Perguntei.

       Uma escala absoluta de encontros e desencontros estabelece medidas que são música no mundo actual.
       O Leão no Zodíaco respondeu:


        O movimento das estrelas actuais são música no mundo real. É esse o sentido da música das esferas.


Robert Duncan
the Opening of the Field, 1960

11 de jan de 2019

Primeiras impressões - Henri Michaux

     Não estando disponível quando criança para brincar com a areia da praia (falta desastrosa da qual me ressentirei a vida toda), chegou-me, fora de época, o desejo de o fazer e presentemente de brincar com os sons.
     Oh! Que estranha coisa ao começo, essa corrente que nasce, esse líquido inesperado, essa passagem que nos leva, em si, que era, sempre.
     Deixamos de conhecer o que nos rodeia (o duro desapareceu).
     Deixamos de nos ferir nas coisas. Tornamo-nos capitães de um RIO...

     Somos tomados por uma estranha (e perigosa) propensão para os bons sentimentos. Tudo é inclinação. Os meios são ele mesmos já o paraíso.

     Não encontramos os travões; pelo menos não tão depressa como descobrimos o maravilhoso...

    Colocamos em circulação uma moeda de água.

    Como um sino a tocar uma infelicidade, uma nota, uma nota que não se ouve senão a ela mesma, uma nota através de tudo, uma nota grave como um pontapé no estômago, uma nota envelhecida, uma nota como um minuto que tivesse que furar um século, uma nota mantida através da discórdia das vozes, uma nota como um aviso de morte, uma nota, que durante esta hora me avisa.


     Na minha música, há bastante silêncio.
     Há sobretudo silêncio.
     Há silêncio antes que qualquer coisa tome lugar.
     O silêncio é a minha voz, a minha sombra, a minha chave... sinal que não me esgota, mas que brota em mim.
     Estende-se, mostra-se, bebe-me, consome-me.
     A minha grande sanguessuga aninha-se em mim.


                                            *
     Quando nada chega, chega  sempre o tempo,
      o tempo,
      sem cima nem baixo,
      o tempo,
      sobre mim,
      comigo,
      por mim,
      passando os seus arcos por mim consome-me e espera.

      O tempo.
      O tempo.
      Ausculto-me com o tempo.
      Tateo-me. 
      Bato-me com o tempo.
      Seduzo-me, irrito-me...
      Engano-me,
      Levanto-me,
      Transporto-me,
      Bato-me com o tempo...

       Pica-pau.
       Pica-pau.
       Pica-pau.

                                                   *

       O que faço aqui?
       Chamo.
       Chamo.
       Chamo.
       Não sei quem é que chamo.
       Quem eu chamo não sabe.
       Chamo alguém de fraco,
       alguém quebrado,
       alguém convencido que nada o poderia quebrar.
       Chamo.
        Perante este instrumento tão claro,
        não é o mesmo do que se chamasse com a minha voz surda.
        Perante este instrumento cantante que não me julga,
        que não me observa,
        sem nenhuma vergonha, chamo,
        chamo,
        chamo do fundo do túmulo da minha infância
        que ainda se amua e contrai,
        do fundo do meu presente deserto,
        chamo,
        chamo,
        O chamamento espanta-me.
        Ainda que seja tarde, chamo.
        Sobretudo, sem dúvida, para rasgar os meus limites
        Chamo.